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Bateria de estado sólido chega ao mar com aprovação DNV e promete fim do risco de incêndio

A SVENNER, da dinamarquesa EPTechnologies, é a primeira bateria marítima de estado sólido com aprovação de tipo da DNV. Aguenta perfuração de prego, seis vezes a sobrecarga e mais de 10 mil ciclos. Um módulo de 16,1 kWh pesa 111 kg e já está à venda.

setembro de 2026

Módulo de bateria azul em caixa de alumínio sobre o mar, com o selo de produto aprovado pela DNV
O módulo SVENNER, de 16,1 kWh, com o selo de aprovação de tipo da DNV. Imagem: divulgação EPTechnologies

Pergunte a qualquer estaleiro, marina ou seguradora qual é o maior freio da eletrificação de embarcações e a resposta não será autonomia nem preço. Será fogo. No Reino Unido, a autoridade de investigação de acidentes marítimos, a MAIB, atribui a baterias de lítio cerca de 40% dos incêndios em iates dos últimos anos. O problema tem nome técnico, fuga térmica: uma célula danificada, sobrecarregada ou mal instalada aquece, libera gás inflamável e contamina a vizinha, numa reação em cadeia que continua mesmo depois de as chamas parecerem controladas.

É esse o cenário que a dinamarquesa EPTechnologies quer mudar com a SVENNER, apresentada em novembro de 2025 como a primeira bateria marítima de estado sólido do mundo com aprovação de tipo da DNV, a sociedade classificadora norueguesa, sob a notação NR TAE000054J. Em setembro de 2026 o produto esteve na SMM, em Hamburgo, a maior feira de tecnologia naval da Europa, e já é vendido sob encomenda.

O que muda dentro da célula

Uma bateria de lítio convencional usa eletrólito líquido, e é esse líquido, inflamável, que alimenta o incêndio quando algo dá errado. Na tecnologia de estado sólido, a maior parte do eletrólito líquido é substituída por materiais sólidos. A célula continua sendo de lítio, mas o combustível do fogo sai de dentro dela.

Os números dos testes dão a dimensão da mudança. A SVENNER suporta seis vezes a sobrecarga sem reação térmica e a perfuração por um prego de 8 milímetros sem pegar fogo. Pela classificação da DNV, atende à Opção de Projeto 1: um incidente térmico fica contido dentro do próprio módulo, o que dispensa a tubulação de exaustão de gases exigida em instalações convencionais. Para quem projeta um barco, isso é espaço, peso e custo de instalação a menos.

Vida útil e a conta de longo prazo

O segundo argumento é a durabilidade. O fabricante fala em mais de 10 mil ciclos de carga a 80% de profundidade de descarga, contra 2 mil a 4 mil de uma bateria de lítio convencional. Numa balsa, num rebocador ou numa lancha de trabalho que carrega todo dia, a diferença aparece em anos de operação antes da troca do banco de baterias, e é por isso que a garantia de ciclos é de cinco anos.

Cada módulo entrega 16,1 kWh a 51,2 volts, pesa 111 kg e ocupa 810 por 425 por 250 milímetros, em caixa de alumínio com proteção IP55, ou IP67 sob pedido. Carrega e descarrega a 1C, ou seja, 314 amperes contínuos, com picos de 350 amperes por 15 minutos, e opera de 10 graus negativos a 60 graus. Os módulos se combinam em racks para balsas, embarcações de trabalho, iates de desempenho e sistemas híbridos, tanto em projetos novos quanto em retrofit.

A eletrônica de gestão também foi pensada para o mar: sistema de gerenciamento com processador duplo redundante, intertravamento de alta tensão, detecção de infiltração de água em cada módulo e uma chave física que permite anular as proteções manualmente numa emergência, quando a tripulação precisa de energia a qualquer custo.

O que a bateria ainda não entrega

Vale separar promessa de produto. A grande vantagem teórica do estado sólido, densidade de energia de 400 a 500 Wh por quilo contra os 250 a 300 das melhores células de lítio de hoje, ainda é meta de laboratório. Nas contas do módulo atual, 16,1 kWh em 111 kg dão cerca de 145 Wh por quilo no conjunto, na faixa das boas baterias marítimas de fosfato de ferro. Ou seja, quem compra a SVENNER hoje compra segurança e vida útil, não um barco mais leve. O modelo de segunda geração, previsto para janeiro de 2026, promete 12% a mais de desempenho nas mesmas dimensões e peso. Preço e tempo de recarga não foram divulgados.

A empresa por trás

A EPTechnologies foi fundada em 2013 por Kasper Falkenberg em Sønderborg, no sul da Dinamarca, e tem como sócio e diretor de operações Marco Ottiker desde 2018. Para Ottiker, a aprovação de tipo da DNV é um avanço para a eletrificação marítima, porque entrega aos projetistas e operadores uma solução completa de armazenamento de energia que reúne segurança, durabilidade e desempenho.

Para o mercado brasileiro, o recado é direto. A eletrificação de barcos de trabalho, balsas, embarcações de apoio e lanchas de serviço em marinas esbarra na desconfiança de armadores e seguradoras com o risco de incêndio. Uma bateria que passa no teste do prego, tem certificação de classificadora e dispensa a exaustão de gases muda a conversa na hora de aprovar o projeto e a apólice. É o tipo de componente que a Economia do Mar vai passar a especificar.

SVENNER, o módulo em números

ItemValor
Capacidade / Capacity16,1 kWh
Tensão nominal / Nominal voltage51,2 V
Peso / Weight111 kg
Dimensões / Dimensions810 × 425 × 250 mm
Ciclos / Cycles10.000+ a 80% de descarga
Carga e descarga contínuas / Continuous charge and discharge314 A (1C)
Pico de descarga / Peak discharge350 A por 15 min
Temperatura de operação / Operating temperature-10 °C a 60 °C
Proteção / ProtectionIP55 (IP67 sob pedido)
Certificações / CertificationsDNV, CE, UN 38.3